Entre as pesquisas realizadas no Núcleo de Pesquisa Psicossocial em Processos Laborais Sustentáveis (#Prolabsustentável) está um estudo sobre relações positivas e negativas do trabalho-família. A pesquisa foi feita com 306 famílias com diferentes arranjos que responderam um questionário com perguntas sobre a repercussão do trabalho nas atividades familiares e vice-versa (i.e., como as vivências familiares influenciam o trabalho). Destas, 170 eram com crianças e descobrimos que elas trazem diferentes repercussões para as famílias.

Mães e pais de crianças pequenas tem repercussões diferentes quando comparados aos que tem crianças maiores e também quando comparados às famílias sem crianças. Mães de crianças menores de 7 anos são mais sobrecarregadas tanto comparadas aos pais quanto comparadas às mulheres em famílias sem filhos. Para essas mães as repercussões positivas também são menores. Sim, duro para nós. Entretanto, essa relação se inverte quando as crianças completam 8 anos, ou seja, quando as crianças ganham um pouco mais de autonomia, a mãe reduz os conflitos de tempo e sobrecarga e com isso aumentam as repercussões positivas tanto do trabalho com a família quanto da família com o trabalho.

Quando se analisa dos homens, observa-se que os pais ganham sempre. Os conflitos são sempre menores e a repercussão positiva é sempre mais alta para os homens que tem filhos, independente da idade das crianças. Portanto, para os homens, aparentemente, é sempre positivo ser pai. Particularmente pai de filhos pequenos.

E agora, melhor ter filhos ou melhor não tê-los? Bem, quando se analisa as famílias sem filhos observa-se menos conflitos e maiores repercussões positivas, mas apenas quando se compara essas famílias às mães com filhos pequenos. Quando as famílias sem filhos são comparadas com todos os demais grupos analisados na pesquisa (i.e. pais e mães de filhos maiores), as médias são menos favoráveis.

Há várias hipóteses explicativas para esta inversão. Com relação às mães, podemos arriscar dizer que depois dos 7 anos, com o aumento de autonomia das crianças, talvez seja uma época que as mães comecem a se permitir fazer algumas coisas para si mesmas. Com relação às famílias de maneira geral, uma explicação provável talvez seja a de que as crianças ensinam aos pais a regularem a relação trabalho-família.

As crianças pequenas recebem o cuidado e os pais experimentam e aprendem sobre a criança, um aprendizado mútuo: os filhos ensinam os pais sobre a vida e vão formando e desenvolvendo habilidades para o exercício de ser criança e auto-cuidado.
Quando assumimos a responsabilidade de sermos pais (digo assim porque sou mãe de duas) continuamos sendo pessoas que se esforçam além de seus limites. Mas, a vida tem altos e baixos e como nos mantermos sendo bons pais com esses altos-e-baixos? Talvez haja um papel da resiliência (que tenta resolver uma dissonância cognitiva?) que nos torne fortes o suficiente para sairmos mais fortes do que entramos nessa. Talvez essa resiliência nos ajude a equilibrar melhor os conflitos e com isso aprendemos a levar as coisas boas do trabalho para casa e vice-versa, além da própria troca com os filhos que sempre nos ensina muito sobre sermos humanos e nos humanizarmos.

Finalmente, sabemos que as escolhas são individuais e há várias outras formas de crescer, amadurecer e nos tornarmos humanos melhores. Mas, ter crianças tem sim suas vantagens. Por isso, cuidemos bem delas porque assim elas podem nos fazer bem. Lamento deixá-l@s, mas tenho uma barraca de lençóis para construir na sala com as minhas crianças.

Amalia Pérez
OBS. Estamos coletando dados em tempos de Covid para esta pesquisa, todo tipo de arranjo familiar pode participar, agradecemos: https://forms.gle/P9KMWPQpdCCU7vHb8


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